2.
Não estou me colocando contra a teoria em nome de um empirismo ingênuo; simplesmente quero destacar os efeitos de certo modelo de crítica que se tornou ubíquo, se não canônico, na última década. Uma de minhas motivações ao escrever Conversation Pieces foi o reconhecimento de que os projetos que mais me interessavam levantavam questões que não podiam ser respondidas produtivamente com as abordagens padrões da teoria da arte. Ao mesmo tempo, eu queria abandonar a crítica como pura negação (descobrindo acordos ou contradições em uma dada prática), para explicar os efeitos positivos de projetos que eram tão simples em sua execução (pessoas conversando dentro de um barco) e, no entanto, tinham um efeito tão complexo. Lembro-me que na conferência sobre "Littoral" em Salford, onde eu apresentei "Evangelistas da Estética", alguém disse: "Bem, esta é uma crítica válida, mas quais projetos você acha que são bem-sucedidos?" Percebi que se eu fosse dedicar tanta energia para escrever sobre esse trabalho, deveria haver algo nele que eu achava produtivo; agora, como eu descrevo isso? Que vocabulário uso? Muitas das ferramentas hermenêuticas que temos à nossa disposição (leitura desconstrutiva, várias formas de crítica ideológica etc.) supõem que a crítica se oriente sempre para a descoberta de alguma falha escondida ou algum sinal de cumplicidade no trabalho em questão, por isso tive realmente que repensar minha abordagem. Espero que isto não signifique que eu perdi minha capacidade de retomar um dado projeto, para avaliar suas fraquezas e também seus pontos fortes. Mas também é inevitável que à medida que você escreve sobre uma determinada área da prática, se identifique mais com ela. E com toda honestidade, uma das coisas que me levou a escrever sobre muitos dos projetos em Conversation Pieces foi um respeito e admiração sinceros pelos próprios praticantes. É claro que eu tenho discordâncias com eles ou diferenças em alguns pontos, mas achei o comprometimento deles, trabalhando contra resistência considerável, realmente contundente. A boa crítica, em minha opinião, precisa começar com uma ligação apaixonada com uma coisa: uma noção de que a prática sobre a qual você está escrevendo importa de algum modo e não é apenas um espécime aguardando dissecção sobre a mesa de exame de seu intelecto.
Wilson: Talvez possamos nos deter um pouco sobre um ponto. Você está oferecendo o que provavelmente seja o tatamento crítico mais importante de um domínio da prática, e está fazendo isso de uma forma sustentável. Ao mesmo tempo, você está se identificando com essa
área da prática e se envolvendo, ao menos na ótica dos outros, no papel de defensor. Penso se, dado que você construiu relações durante uma década ou mais com vários praticantes (o grupo Littoral no Reino Unido, Suzanne Lacy, ou os Harrisons, por exemplo), se essas relações tiveram um impacto em seus ensaios críticos?
Kester: A natureza imersiva, sustentada, dessas práticas (muitas das quais se desenvolvendo durante semanas, meses, ou mesmo anos) impõe demandas diferentes ao crítico: uma noção diferente de ritmo e duração em sua relação com o artista. Eu simplesmente não posso visitar um museu ou uma bienal e ver uma dada escultura ou instalação. Eu preciso passar algum tempo com o artista, em termos ideais no local do projeto real, conversar com outros participantes e tentar adquirir uma noção de sua gestalt. O trabalho de Jay Koh e Chu Yuan em Myanmar, por exemplo, acontece há quase sete anos, e seu significado é produzido através de um acréscimo gradual de trocas sociais, eventos e interações dentro e entre uma rede de artistas e escritores do local.3 Um envolvimento mais profundo na prática leva a uma relação mais próxima com o praticante. Isso pode acontecer com historiadores ou críticos que escrevem sobre práticas mais tradicionais, como a pintura e a escultura. Ao mesmo tempo, não planejo escrever sobre o mesmo grupo de artistas indefinidamente. É sempre necessário manter a autonomia relativa de suas ideias sobre o trabalho. Eu também tenho que dizer que a maioria dos artistas e grupos sobre os quais tenho escrito têm consciência disso, e eu nunca senti ressentimento pelas críticas que fiz. A maioria deles recebe bem as críticas, se vêm de alguém que se dispôs a aprender sobre e com o trabalho. Dada a atitude desaprovadora que muitos críticos e historiadores mais aceitos têm para com a prática da arte engajada ou ativista, eles se sentem satisfeitos por terem um interlocutor bem-informado. Foi realmente um desafio publicar Conversation Pieces porque a imprensa na época achou que não havia mercado para um livro teórico sobre a prática da arte ativista. Essa situação mudou desde então, em parte devido ao sucesso do trabalho de Nicholas Bourriaud e à influência significativa de bienais (que antes eram) locais privilegiados para a arte mainstream, e devido ao fato de que artistas e grupos mais jovens continuam a trabalhar dessa forma, muitas vezes à margem do mundo "oficial" da arte.
sábado, 14 de fevereiro de 2009
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