quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Tania Bruguera, auto-sabotagem

Tania Bruguera, respeitada artista nascida em Cuba, mostra uma postura firme, clara e admirável, em defesa da arte feita politicamente. Para ela, o artista deveria se auto-sabotar, abandonar expectativas com relação ao seu trabalho, sua posição confortável, seus projetos e... viver.


Vai aí a primeira parte de sua apresentação em seminário organizado para Jeu de Paume por Maria Inés Rodriguez*, 6 de março de 2009.
I
Eu gostaria de focar minha apresentação hoje nas palavras que anunciam este seminário: "Cultura como Estratégia de Sobrevivência". Gostaria de compartilhar algumas ideias e até mesmo perguntas sobre a ideia de sobrevivência.

Falamos de sobrevivência como um elemento importante, mesmo quando sua definição tem mais a ver com um conceito biológico do que social. Há momentos em que sobreviver é a resposta errada, conservadora, sublimando a permanência acima da noção de viver. Às vezes sobreviver (ou querer sobreviver) é o que nos torna mais fracos, o que nos leva a perder nossa intenção de viver, o que nos torna simplesmente animais. Para entender o ser social, às vezes não deveríamos sobreviver.

Examinando a ideia de sobrevivência de um ponto de vista social, poderíamos chegar à conclusão de que é exatamente a batalha contra essa noção de estabilização que leva ao avanço social. É a reação na presença da morte (ou seu equivalente: a inércia social) que define o tipo de sujeito social que somos. Portanto, a pergunta para mim seria: o que fazemos após termos sobrevivido? Por quanto tempo deveríamos sobreviver? E a mais importante para mim: por que sobreviver? Todas essas perguntas têm a ver com responsabilidade.

A palavra estratégia também implica uma situação frágil, uma solução no curto prazo, um estado transitório. Poderíamos dizer que uma vez que a arte tem uma função socialmente limitada, uma representação não é a apresentação de soluções, mas sempre uma diversão temporária.
A responsabilidade da cultura não deve ser fundar na oferta de estratégias de sobrevivência, mas em dar uma noção da sobrevivência. A Cultura como ferramenta social deveria nos levar a fazer alguma coisa com o medo e o desejo de recomeçar. Porque sobreviver é um processo de apagamento, um processo de desestabilização de valores, um processo onde definimos que aspecto social é importante para nós e quais são aqueles (valores) aos quais devemos dar prioridade.

Sobreviver é um processo em que a reflexão abstrata se torna corpórea.
Para nos restringirmos ao mundo da arte, poderíamos dizer que há dois tipos de arte: aquela interessada na representação - poderíamos dizer que é a arte daqueles interessados em ser narradores - e aquela interessada em "colocar em prática", implementar ideias - aquela dos interessados em fazer. A primeira está mais interessada em manter os arquivos e desenvolver recursos em um ambiente protegido, reservado para observação. É por isso que eu estou mais interessada em falar da segunda posição, porque ela está mais comprometida com um relacionamento político e mais dentro do discurso da realidade.

II
(a politização da sobrevivência)
Eu gostaria de citar algumas palavras da apresentação que acabamos de ouvir de Lisette Lagnado, quando ela pergunta: "Uma mostra hoje pode estabelecer um lugar que pertença à política, como acontece com fábricas, ruas ou a Universidade?"
Acredito que isto não só seja possível, mas seja o desafio da arte hoje. Acredito que haja elementos estruturais pertinentes a esta busca:

1. a ideia de uma arte contextual,
2. a ideia de uma arte útil,
3. a necessidade de mudar o tempo do consumo da arte,
4. a construção de um novo papel para o espectador,
5. esquecer a ideia de que a arte é eterna.

Os artistas dizem frequentemente que falam pelos outros. É a velha ideia de artistas emprestando sua voz para aqueles que não a têm, mas como bem sabemos, isto é problemático. Deveríamos dar o espaço privilegiado de artistas aos outros, àqueles que não têm espaço social, porque não estamos em tempos de falar, de dizer. A arte já encontra muita concorrência novad mídias (internet, SMS e assim por diante). Estamos em tempos de fazer, transformar palavras em ação, de uma fonte de informação e observação para uma fonte onde ferramentas sociais são criadas. Os artistas devem ceder seu espaço, um espaço de privilégio social, porque é um espaço onde você pode re-imaginar e então reconstruir uma relação de poder: um espaço que torna disponíveis ferramentas que podem ser transportadas para o mundo real.

* María Inés Rodríguez é curadora do Museo de Arte Contemporáneo de Castilla y León (Espanha). Em 2008-2009, foi a curadora doPrograma Satélite Jeu de Paume (que incluiu exposições com Mario Garcia Torres, Vasco Araujo, Agathe Snow, Irina Botea, Andreas Angelidakis e Angelo Plessas, e uma série de conversar com Cuauhtemoc Medina, Magali Arriola, Sofia Hernandez Chung, Julieta Gonzalez, Pablo Leon de la Barra, Lisette Lagnado e Tania Bruguera).

1 comentários:

Nannie disse...

Oi Lúcia, gostei muito!