
Transcrevo aqui texto de Egle Spinelli, sobre parceria realizada entre o coletivo Dulcinéia Catadora e o site Cronópios. Vale a pena ler. Obrigada, Egle!
Novo projeto do site Cronópios explora o conceito de narrativa transmídia
A antologia que virou filme, que virou livro, que virou documentário. A passagem do tempo é o tema que inicia o projeto. Fragmentos de textos enviados por diversas partes do Brasil são compilados em uma antologia literária de 35 autores publicada na internet, que dá origem ao roteiro de um filme também veiculado na rede, além de constituir o recheio de um livro impresso que acompanha DVD, com o filme e mais um documentário sobre o processo de criação das capas personalizadas do livro. Este é o H2Horas, projeto realizado pelo site de literatura e artes Cronópios, que constitui uma obra coletiva e interativa em diversos meios de comunicação.
As possibilidades de um conteúdo em comum trafegar por diversos meios como o impresso, audiovisual, internet e dar origem a uma obra realizada por um coletivo de autores é uma experiência que alguns pensadores da atualidade, como Henry Jenkins, diretor do programa de estudos de Mídia Comparada do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e autor do livro Cultura da Convergência, denomina de narrativa transmídia, a arte da criação de um universo a partir da interação entre editores/produtores, autores e consumidores em diversas plataformas de comunicação. A tecnologia permite a interação de uma coletividade, localizada em diferentes espaços reais ou virtuais, na troca de experiências criativas para a concepção de uma obra que pode convergir em mídias diversas. Pela primeira vez no Cronópios, surge uma produção que faz uma remixagem de obras de diferentes autores e perpassa diversos meios de comunicação.
O projeto H2Horas começa quanto o editor do Cronópios, o Pipol, propõe aos autores que interagem com o site a enviar textos, poemas ou micro-contos que tivessem uma temática relacionada à “passagem do tempo”, para que fosse realizada uma antologia que resultaria em um livro ilustrado tanto no formato digital como em meio físico, e que também poderia se tornar um filme. O início do H2Horas já demonstra seu caráter colaborativo, pois o nome foi sugestão de um cronopiano, denominação carinhosa dada àqueles que contribuem e participam com o site. A concepção do projeto ocorreu por meio do Café Cronópios, uma espécie de micro-blog localizado na maioria das páginas do site, o espaço virtual escolhido para o envio e troca de idéias entre os editores e autores do projeto. O critério fundamental para a escolha dos textos foi o interesse dos autores em participar do projeto. Assim, Pipol, o editor responsável por esta difícil seleção, mesmo quando não conseguia aproveitar os textos enviados, foi atrás de outros textos que já tinham sido publicados no site pelo autor para tentar encontrar algum fragmento que pudesse ser utilizado no projeto. Assim surgiu o roteiro do filme, que deu origem a primeira obra: uma antologia literária digital constituída por fragmentos de textos de 35 autores de diferentes localidades do Brasil. A partir daí teve início a produção do filme H2Horas que passa a ser uma obra autoral do Pipol. Os textos foram narrados por Milton Filippetti e foi realizado um intenso trabalho de captação de imagens, além da extensa pesquisa na busca por outros colaborados virtuais na própria internet. “Finalizo a edição depois de um mês e meio de trabalho. Não foi nada fácil fazer esse vídeo... Fiz captação de imagens pela cidade e pensei também em usar imagens já sob Domínio Público ou com o selo Creative Commons, que podem ser encontradas num site chamado Internet Achive (www.internetarchive.org). Foram horas de pesquisas, tanto de imagens como de músicas e efeitos sonoros utilizando este site - que é também um grande banco de sons. Na edição usei vários filtros e plug-ins. Adquiri também, em sites especializados, algumas animações em 3D. A mais bonita é da cena de abertura, com um passeio por dentro de um relógio”, comenta Pipol.
Surge o filme H2Horas, com cerca de 23 minutos de duração e constituído de imagens e sons que amplificam os dizeres dos textos declamados por um narrador em off. Uma sequência de cenas relativas aos textos escritos por diferentes autores aparecem de maneira linear, um após o outro com o crédito do autor escrito na tela. Textos que já foram remixados anteriormente e que, no filme, tem o sentido reatualizado pela primorosa composição de sons e imagens editadas como se quisessem trazer um outro tempo e espaço, um outro mundo, um universo que expande nossa realidade e mostra que a partir do fragmento é possível constituir um todo muito mais completo. O uso de filtros que transformam as imagens em pinturas em movimento, a aceleração, o retrocesso, a sobreposição e coloração das imagens, a manipulação do material bruto e da referência imagética torna o tempo e o espaço fragmentado em camadas expressivas. As nuvens do céu que não cessam de se mover. O tempo não pára... a obra não cessa e continua a se expandir.
A antologia literária, do roteiro escrito e digital publicado na internet é reinventada no meio audiovisual. Mas a obra ainda continua a se recriar. O roteiro volta para o papel impresso para virar livro e tem as capas confeccionadas por um outro grupo de criadores, o Dulcinéia Catadora, um coletivo brasileiro derivado de um projeto artístico e social iniciado na Argentina chamado Eloísa Cartonera, que envolve catadores e seus filhos na produção de capas de livros personalizadas, ao pintar e modelar as capas com o próprio papelão coletado nas ruas. Pela primeira vez um livro do Coletivo Dulcinéia Catadora vai ser acompanhado por um DVD, que trás o filme H2Horas feito para a web, mais a produção documentária que mostra o trabalho do coletivo Dulcinéia na preparação e montagem do livro que envolve o projeto H2Horas.
Do digital para o analógico, do analógico para o digital. Parece que chega uma hora que o projeto tem que terminar. Antologia que vira vídeo, que vira livro que vira DVD. Posso ler e assistir os textos e vídeos na internet, como posso ler os texto em um livro em minhas mãos e assistir ao DVD na TV em casa. Mídias mais antigas e novas mídias se colidem, editores, autores e consumidores se interagem, produtores alternativos encontram novos espaços fora do conglomerado das grandes corporações. Experiências de um modelo de produção de conteúdos potencializado pela elaboração de obras que convergem em várias mídias a partir de um ambiente colaborativo e interativo na internet.
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Egle Müller Spinelli é jornalista, Profa. Dra. e pesquisadora da UAM. É também Diretora de TV
e de Projetos da TV Cronópios. E-mail: egle@cronopios.com.br

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