segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Entrevista a Evandro Rodrigues

Curioso responder por e-mail a Evandro, que iniciou seu trabalho de livros com capas de papelão em Santa Catarina. Preferia que essa entrevista tivesse sido feita em um encontro, descontraído, na Casa das Rosas, no final de 2010, quando houve um evento comemorativo de YiyiJambo e Katarina Kartonera. Enfim, aí vai. Sempre acho importante registrar essas entrevistas. Quem sabe um número maior de pessoas possa ter acesso a elas e conhecer um pouco mais do coletivo Dulcinéia Catadora.

Aí vai, na íntegra.

Entrevista de Evandro Rodrigues, mestrando Universidade Federal de Santa Catarina e editor responsável pela Katarina Kartonera, com Lúcia Rosa, coordenadora da editora Dulcinéia Catadora.

1- Quem é Lúcia Rosa?Sou formada em letras, inglês/português, pela Universidade de São Paulo. Trabalho no ramo editorial há trinta anos. Sempre desenhei, fui bolsista na FAAP quando criança. Lá eram ministrados cursos livres e entre os artistas que davam oficinas tínhamos Nelson Leirner, Naum Alves de Sousa, gente muito boa. Como artista plástica, realizei várias exposições individuais e participei de coletivas. Destacam-se Ferro, na Conjunto Cultural da Caixa SP (2003), instalação com sucata de ferro no SESC Ipiranga, SP (2005). A colaboração com o Eloísa Cartonera na 27ª Bienal de São Paulo, 2006, e os painéis no SESC Pompéia (2007) feitos em parceria com Javier Barilaro levaram-me a iniciar o coletivo Dulcinéia Catadora. Em contrapartida, a dedicação ao coletivo acabou tomando conta de mim e praticamente abandonei meu trabalho autoral desde então, com pequenas exceções, entre elas a performance realizada como parte da instalação de Teresa Berlinck, na Galeria Vermelho, em 2007.
O coletivo, que reúne artistas, escritores e jovens filhos de catadores ou em situação de vulnerabilidade, foi a chave para unir esses dois caminhos seguidos lado a lado, a literatura e as artes visuais. Funcionando há quatro anos, o grupo editou mais de 75 títulos, vendeu aproximadamente 4500 livros, realizou oficinas em várias cidades do estado de São Paulo, e também em Brasília, Porto Alegre e no Recife. Participou da Mostra SESC de Artes, Circulações, 2007, juntamente com o coletivo portenho Eloísa Cartonera, e tem realizado várias intervenções urbanas, pelas ruas e praças do centro de São Paulo, e durante eventos culturais (virada cultural, 2008) e literários (FLIP, 2008).

2- O que significa ser Dulcinéia Catadora? Ser do coletivo Dulcinéia Catadora significa ser mais um integrante, contribuir com as diferenças e conviver com elas. Reconhecer a diversidade e fazer dela um fator gerador da riqueza do grupo.

3- Dulcinéia Catadora mantém vínculo com Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Movimento da População de Rua, cujos membros ajudam na confecção dos livros, e a ONG – Projeto Aprendiz. Como funcionam estas parcerias? Existem outros auspícios, de governo municipal, estadual ou federal?O vínculo com os Movimentos é uma parceria selada pela comunhão de ideias, ideais e pela postura contestatória e reivindicações de um segmento quase ignorado da população; não envolve nenhum repasse de aporte para as atividades do coletivo. Tampouco buscamos recursos do governo, seja qual for a instância. Nossa proposta é a autossustentabilidade, a independência, mesmo que precária, do grupo. Funcionamos no Ponto de Cultura Escola da Rua e isso é bom, porque nos isenta de aluguel, é um apoio e tanto, mas não recebemos nenhum material, nenhuma forma de benefício de natureza pecuniária.
4- Como se dá a participação dos catadores e filhos de catadores dentro da editora?Não somos editora. Seria ridículo fazermos tal afirmação. Desenvolvemos atividades na oficina junto com eles. Entre elas, a confecção de livros com capas de papelão pintadas à mão, com toda a liberdade, sem hierarquia de papéis. Por isso, me desculpe, mas abomino a denominação “coordenadora”. Não tem sentido para mim.
5- Dulcinéia já participou de importantes eventos artísticos e literários, por exemplo, a Bienal de São Paulo, em 2006, e a Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP, em 2007. Com se deu esse contato entre o marginal e o oficial?Não me agrada o termo marginal, muito menos em contraposição a oficial. De qualquer modo, prefiro não entrar nessa polêmica, que envolveria a definição de termos, conceitos, etc, o que necessitaria muitas páginas e tempo. Bem, na Bienal, estivemos a convite da produção. O tema era “Como Viver Junto”, o que deixa claro o pensamento da curadoria, feita por Lisette Lagnado. Portanto, fizemos parte de um evento “oficial”. Um evento artístico. Claro que algumas dificuldades surgem quando funcionários querem fazer cumprir ordens da administração. Mas, com um pouco de resistência, questionamento e esclarecimentos, conseguimos desenvolver nosso trabalho, sem prejuízo nenhum de nossa mensagem.

6- Lúcia, percebe-se nas performances da Catadora referências ao escritor e crítico de arte Nicolau Bourriaud. Qual seria sua contribuição para a concepção do coletivo Dulcinéia?
Cada integrante traz sua contribuição, fruto de sua formação, acadêmica e não acadêmica, de sua vida. As referências de leitura de filósofos e críticos de arte são levadas por mim ao grupo. O entendimento é rápido quando as ideias apenas traduzem o que é vivido.

7- Vcs além das confecções de livros cartoneros também organizam as exposições em grafitemas. O que são exatamente essas performances e como funciona isto na prática?Além dos livros com capas de papelão reciclado realizamos intervenções urbanas, quando há tempo disponível para isso. Discutimos o projeto, todos participam dos preparativos na oficina e vamos para a rua, onde as ações fluem mescladas às reações da população e com muita espontaneidade. Também fazemos instalações, damos oficinas de pinturas e até de literatura. No caso particular de Grafitemas, dividi as oficinas com Livia Lima, aluna de editoração, pensando especialmente em um grupo de grafiteiros. A idéia era a formação de um repertório de poesia visual para que eles pudessem agregá-la ao grafitti.
8- Em um texto publicado no blog da Catadora há uma frase sua que diz assim: “Long Live Dulcinéia Catadora!!!!”. Qual melhor ação da Dulcinéia em relação ao mercado cultural e livresco para que possa perdurar o projeto?
Costumo dizer, repito, que não somos editora, embora uma de nossas atividades seja a confecção de livros com capas de papelão. Temos toda a liberdade do mundo para escolher os autores, os textos, quer eles sejam “desejáveis” ou não, do ponto de vista do mercado. Os autores formam uma rede importante, que fortalece as ações do coletivo. Alguns deles, além de dividir conosco a tarefa de divulgação, participam das oficinas, entendem nossa proposta na íntegra e mergulham nesse trabalho colaborativo. Não subsistimos da venda de livros, que é pequena. Nossas ações artísticas é que geram a maior parte da renda dividida entre os integrantes do grupo e garantem a sobrevivência do coletivo, desse ponto de vista. Enquanto nossa atuação artística perdurar, o coletivo Dulcinéia Catadora existirá, para incomodar muita gente...

9- Para finalizar...Acho que já finalizei!

1 comentários:

Ana Corazza disse...

Olá, Lúcia.
Tive contato com seu trabalho através da revista Vida Simples e fiquei encantada com o conceito, a ideia, tudo.

Recentemente, criei um blog para expor as artes, os desenhos, de meu filho (assim como sugere a escola, de modo que possamos prestigiar suas produções artísticas). Sou jornalista e por isso dou a cada desenho uma história, uma reflexão.

Quando li sobre seu trablho me deu logo vontade de oferecer os desenhos e textos para, quem sabe, expor em uma das pulicações.

Caso tenha interesse em avaliar nosso singelo, mas muito sincero trabalho, peço que visite: ninjaocidental.blogspot.com

Um grande abraço,
Ana Paula Corazza