Desde que nascemos lidamos com conceitos antagônicos, muitas vezes de forma excludente, absoluta, que nos levam a construir nossa imagem interna em relação aos outros, ao mundo.
Comentários na família de que, com quatro irmãos para brincar, eu preferia sentar-me num canto, calada, observando a movimentação, a correria, conversas, brincadeiras.
Não é por acaso que comecei a falar aos três anos. Não por algum problema, pois quando decidi me comunicar verbalmente, logo desembestei a dizer frases inteiras, mostrando que todo o processo mental estava lá pronto para ser empregado. Só que talvez eu não visse muita razão para essa forma de comunicação. Olhar e sentir eram mais fortes para a minha vida.
Poucas foram as memórias de estar junto, brincando no meio da “bagunça” feita por tantas crianças.
Muitas são as lembranças de momentos solitários em que eu ficava montando peças de aço do Pequeno constructor, ou Pequeno Engenheiro, o nome não guardo, mas as peças vermelhas e verdes do jogo que era de meu irmão seis anos mais velho, essas parecem estar todas ainda em minha cabeça, quem sabe para me ajudar a montar meu espaço interno e externo com parafusos, alicate, chaves de fenda.
Roupas com papel recortado ou de tricô, para as bonecas,fantoches de caroço de manga, pinturas em telhas e tijolos encontrados no fundo do quintal. Desenhos com pedaços de carvão no cimento rústico. Atividades que enchiam meu dia. Brincava calada.
Quase todas as tardes, lá pelas cinco horas, saía para andar, caminhar pelas ruas vizinhas. Adorava andar, cantarolando muitas vezes, ou deixando o pensamento fluir. Organizava ideias que não partilhava com ninguém.
Escrevo tudo isso para situar algo que senti claramente, do meu presente.
Numa feira de livrosda qual participei recentemente, acabei ficando num canto da galeria, entre as tantas mesas na sala contígua e uma infinidade de livros e obras de artistas na outra. Parecia ter me metido num nicho especial. Confesso que me senti bem naquele canto. E nem era mesa com livros, nem obra de artista (uma instalação). Uma montagem difícil de “classificar”, assim como os livros do Dulcinéia Catadora. Cultura popular ou livros de artista???
Como sempre, mantenho essa posição indefinida, com um trabalho híbrido. Complicado de se encaixar. Algo que já faz parte da minha forma de viver ou de estar no mundo. O isolado que está dentro.
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